Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017

Buscar   OK
Brasil

Publicada em 19/05/17 as 17:53h - 58 visualizações
“A Manoel De Barros, O Ensinador De Ignorâncias”

Mia Couto


 (Foto: Reprodução )

Estou sem texto, enriquecido de nada. Aqui, na margem da floresta, me desbicho sem vontades para humanidades. Entendo só de raízes, vésperas de flôr. Me comungo de térmites, socorrido pela construção do chão. No último suspiro do poente é que podem existir todos sóis. Essa é minha hora: me ilimito a morcego. Já não me pesam cidades, o telhado deixa de estar suspenso ao inverso em minhas asas. Me lanço nessa enseada de luz, vermelhos desocupados pelo dia. Nesse entardecer de tudo vou empobrecendo de palavras. Não tenho afilhamento com o papel, estou pronto para ascender a humidade, simples desenho de ausência. Na tenda onde me resguardo me chegam, soltas e díspares, desvisões, pensatempos, proesias. Assim, em miudádivas a Manoel de Barros, meu ensinador de ignorâncias:

MIA COUTO

A primavera cabe dentro do grilo.
Cigarras se alfabetizam de silêncios.
No liso da parede,
a osga se prepara para transparências,
ganhando a forma do nada.
Enquanto o ramo
vai transitando para camaleão
a aranha confunde madrugada com sotão.
Na mafurreira,
sobem ninhos de arribação, ovos do arco-íris.
Minha tenda se engrandece em teia.
Uma mosca se inadiverte na armadilha.
Igual o amor
que me rouba artes de viver.

Formigas transportam
infinitamente a terra.
Estarão mudando
eternamente de planeta?
Estarão engolindo o mundo?

Insectos sonham ser olhados pelo sol.
Mas só a chama da vela os vê.
Já o ovo é iluminado por dentro,
tocado pela luz do infinito.
O ovo repete o estreante início,
a redundante gravidez do mundo.

Por isso, este surpreendido ovo
não tem competência para meu jantar.
Pena o estomago não entender poesias.

Nada se parece tanto: poente e amanhecer.
Defeitos na tela do firmamento ?
Instantâneas aves,
andorinheiras, pedras que se despoentam.
A noite acende o escuro.
Tudo semelha tudo.
Só a coruja atrapalha a eternidade.

Está chovendo horas,
a água está a ganhar-me semelhanças.
Escuto ventos, derrames de céu.
Parecem-me luas e são lábios.
A tua boca me ilude, sou culpado de teu corpo.
Saudade: sou mais tu que tu.

Escuto, depois, a enchente.
Longe, a água desobedece a paisagens.
O rio toma banho de troncos,
raízes da água se soltam.
Sigo de catarata, luz encharcada.
E peço desculpa à margem:
desconhecia as unhas de minha transbordância.

Meu sonho está cego para razões.
Sei só escrever palavras que não há.
O sono me encaracola:
estou a ser pensado por pedras,
me habilito a chão, o desfuturo.

Texto escrito em fevereiro de 1997.




Deixe seu comentário!

ATENÇÃO: Os comentários postados abaixo representam a opinião do leitor e não necessariamente do nosso site. Toda responsabilidade das mensagens é do autor da postagem.

Hora Certa
No Ar
PLANETA MPB
Peça sua Música

  • Liduina
    Cidade: Aracati
    Mensagem: Andanças
  • Cláudia Rennó
    Cidade: Rio de Janeiro/RJ
    Mensagem: Reencarnação ! A Vida Continua de Robertinho Rennó CD Luz do Caminho
  • Cláudia Rennó
    Cidade: Rio de Janeiro/RJ
    Mensagem: Amanhecer de Robertinho Rennó CD Luz do Caminho
  • Edmilson Gonçalves
    Cidade: Rio de Janeiro/RJ
    Mensagem: Reencarnação ! A Vida Continua de Robertinho Rennó CD Luz do Caminho
  • Edmilson Gonçalves
    Cidade: Rio de Janeiro/RJ
    Mensagem: r
  • Allex Ribeiro
    Cidade: Rio de Janeiro/RJ
    Mensagem: Reencarnação ! A Vida Continua de Robertinho Rennó CD Luz do Caminho
Publicidade Lateral
Estatísticas
Visitas: 219811 Usuários Online: 3


Bate Papo

Digite seu NOME:


Parceiros
PR GAS DISTRIBUIDORA
Neto Ótica
Gaby Unhas
Loja Styllo A
Laboratório Dr. Klaus Magno

Venha fazer parte da Rádio do Bem, junte-se a nós na missão de semear a Paz e o Bem pelo Planeta.
Copyright (c) 2017 - WEB RÁDIO DO BEM - Todos os direitos reservados