
Fernando Pessoa é para mim o maior poeta português um dia apresentou ao mundo o seu Guardador de Rebanhos, ali está escrito:
"Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações. / Penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés / E com o nariz e a boca."
Nossa Rádio do Bem neste instante apresenta o nosso estimado AMIGO DO BEM, Antero Pereira, o Guardador de Histórias.
Percorro um território hostil, falar de literatura é sempre motivo de controvérsia, todavia pedindo desculpas a quem tenha uma ideia contrária mas ouso afirmar que deste a célebre obra Terra Aracatiense do saudoso Abelardo Gurgel nenhum outro em nossa Terra dos Bons Ventos tenha guardado tão bem a nossa história que Antero Pereira.
Gosto da sua suavidade, do seu olhar que ver para além dos olhos, talvez tenha aprendido com O Pequeno Príncipe a ver com o coração e um coração apaixonado pela sua terra e sua gente acaba vendo melhor ainda.
Até hoje é procurado quase que diariamente em nosso Bazar do Bem as suas edições de Histórias de Assombração do Aracati, mais tivéssemos, mais venderíamos, em nossa lista dos mais vendidos é disparado o primeiro.
Já escreveu sobre a Ponte JK, sobre o Aracati antigo em sua bela obra, O Aracati era assim. E sobre tantas coisas mais, em particular o seu texto que mais gosto é o AMOR DO PALHAÇO que deixo para nossos leitores de presente ao final.
Agora editado pelo selo LUA CHEIA de um outro aracatiense fantástico Marciano Ponciano lança o seu mais recente trabalho onde escreve sobre a Cólera Morbo em Aracati com o título:
ARACATY 1862 COLERA MORBO, já se pode imaginar o belíssimo trabalho de pesquisa do nosso guardador de histórias.
DATA: 28/11
LOCAL: TEATRO FRANCISCA CLOTILDE
HORÁRIO: 20h
O AMOR DO PALHAÇO
O circo era de uma pobreza que dava dó. De bens materiais somente o pano sujo e esfarrapado que circundava os poleiros e os dois mastros que seguravam o trapézio. A empanada era o céu estrelado da Canoa Quebrada. Mas tinha gente que fazia do circo uma festa. Principalmente o palhaço e sua bailarina/bailarino da cor do ébano preta como o miolo do jucá.
Depois do número do trapezista que pendurado fazia acrobacias sem nenhuma rede protetora, entrava o palhaço acompanhado da bailarina preta parecida com a nega do Pajeú que com sua bunda dura e arrebitada dançava e rebolava ao som da música da Gretchen, hit de sucesso no começo da década dos anos 70...
Canoa Quebrada ainda guardava a inocência e a pureza dos primeiros tempos, que os mochileiros começavam a descobrir...
A bailarina preta recebeu o nome de Gretchen em Canoa Quebrada. Foi o povo que assim a batizou embalado pelo ritmo dançante e erótico da música rebolativa...
Não havia a alegria do palhaço se faltasse a presença da então agora Gretchen...
Se havia alegria no picadeiro de areia, havia também amor na ribalta, no aconchego dos bastidores onde viviam e se amavam o palhaço e a bailarina.
Um dia, o circo, se foi levando consigo a alegria das noites e o seu palhaço amoroso. A bailarina ficou. Enfeitiçada pela magia da Canoa desistiu do seu amor, sem nunca jamais deixar de amá-lo.
A partir de então a Canoa Quebrada foi seu imenso circo. A Broadway era seu picadeiro onde noite após noite apresentava o show desfalcado do seu palhaço. Dançava e cantava, mas tinha os olhos tristes mesmo quando espelhavam o alucinante brilho do efeito do álcool...
Foram anos e anos perambulando pelas praias, sempre vagando, querendo mostrar seu show que mais ninguém queria ver...
A bailarina fez seu último rodopio na estrada, atropelada por quem não parou nem para ver se o show tinha findado. Somente a escuridão da noite e a luz das estrelas assistiram à derradeira função da bailarina...
Seu corpo negro e envelhecido, estendido no preto do asfalto se confundia com a estrada.
Seus olhos abertos fitavam o sol quando a bailarina partiu...
(Antero Pereira Filho)
