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SAPATO NA MÃO NA PROCISSÃO

Publicada em 07/02/24 as 16:33h por José Nilton Fernandes - 21 visualizações

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 (Foto: Reprodução Google )

Hoje, quando por detrás da cortina das eras espreito o passado, fico a imaginar e a comparar como era a vida durante a década de 1950 e agora.

Tudo mudou, notadamente onde nasci, tornando o Aracati moderno, sobejando com sombras de seu passado. Quando criança, em Aracati, minha mãe aconselhava-me e obrigava-me a  acompanhar o curso das procissões, especialmente as celebradas em nome doe Senhor do Bonfim e São Sebastião. Embirrava para não ir, mas acabava submetendo-me à sua vontade. cedendo.

 Participar desses eventos,  significava, na tradição dos aracatienses, vestir a melhor roupa e calçar o melhor pisante, contanto que se tornasse bem apresentável, inclusive no tocante à aparência. ou seja, tornar-se destaque.

Minha mãe se encarregava de confeccionar nossas próprias roupas, E enquanto o seu Ananias Bernardo cuidava de manufaturar dos sapatos, encomendados com larga antecedência, já que o notável artesão era bastante requisitado nesse período.

Faltavam apenas dois dias para a festa do Senhor do Bonfim. Vi a minha roupa prontinha, espichada numa cruzeta. Corri até à casa do sapateiro no encalço dos meus calçados, embora desconfiasse que os mesmos ainda não estivessem prontos, pois, escutando a minha alma, esta já me dizia aquilo que meus olhos ainda não tinham visto. Nem sequer os tinha iniciado, de fato, mas, me aconselhou a não me preocupar. E o tempo corria célere... A verdade, em resumo, é que há poucas horas para o início da procissão, já ouvindo o ribombar dos sinos, encontrava-me banhado e vestido; porém, descalço, ainda que intimamente satisfeito por não ter que ir à procissão. Sob coação da minha mãe, pressão, seguida de cascudos, num pulo já me encontrava diante do sapateiro. Apenas o sapato do pé esquerdo estava pronto. Sugeriu-me -– pois, intencionava também ir ao cortejo - que eu calçasse somente um sapato, o do pé esquerdo, pondo com o outro na chinela. Louvei sua iniciativa, mas, de repente, a rejeitei, por medo de alguma punição. mais cocorotes. E, assim, fiquei ao seu lado, apoiando-me em minha tristeza, até que o do pé direito estivesse pronto, aguardei até o outro sapato estar confeccionado.

Ao cabo de dez minutos já com o sapato do pé direito. Calcei o do pé esquerdo, sentindo-o confortável.  O do pé direito, todavia, talvez por artimanha do diabo, não coube no meu pé. Parara tudo tem jeito, falou o seu Ananias. Desse modo, muniu-se de ferramenta que lembrava parecida com uma espátula e o encaixou até entrar, embora queimando até mesmo minha alma. E sai rumo à procissão. Suportei os primeiros passos; entretanto, já dentro do cortejo, a dor era extremamente insuportável, levando-me a caxingar. Foi então que percebi ser verdade que as grandes dores são mudas, pois, nada me saía da garganta. Ouvi, claramente, uma mulher dizer: ;diabo de andar feio o desse menino! É o filho de dona Juanita, disse a outra. Algumas mocinhas também riram, em tom de mofa. Diante do Senhor do Bonfim, mandei todo mundo se ferrar, aliás bem pior do que isso, também escrito com a letra, para aqui não escrever o verbo pronunciado na ocasião.

 Havia uma força invisível, divinal, me aconselhando a prosseguir. Contudo, sentia uma outra, igualmente forte e aparentemente maligna, insistindo para que abandonasse a procissão me seduzindo a parar. De repente, um barulho, seguido de grande conforto: o sapato rasgou-se! Não me recordo ter chorado ou rido. Certo mesmo é que acompanhei todo o percurso com o sapato direito na mão... cantando louvores a Deus! 

Fortaleza, 08 de fevereiro de 2024

José Nilton Fernandes






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